quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Relatos de moradoras do bairro de Engomadeira



Renilda Cardoso, é moradora do bairro da engomadeira há 37 anos, se mudou para o bairro ainda adolescente por necessidade financeira, filha de lavadeira e caminhoneiro ela conta que era difícil para família pagar aluguel no bairro que eles moravam e quando souberam que várias pessoas estavam se mudando para essa região e invadindo o local, então toda família se mudou e construíram uma casa de taipa.



Ela disse que não sente saudades do bairro como era antes, pois não havia saneamento básico, asfalto e as casas eram todas feitas de taipa ou de madeira e que as mudanças da rua no passado para atualidade é muito grande  "Tinha esgoto passando aqui na porta, era barro, muita lama, quando nós viemos morar aqui tinha que ser casa de Taipa, de maderim com varinha. Tinha muito mato, muita cobra, muitas coisas horríveis. Nós não tínhamos água encanada, a gente pegava água na fonte, a rua não tinha asfalto, era difícil."



No entanto, ela contou também que o perfil dos moradores não mudou muito, pois a maioria dos moradores envelheceram ali e os mais novos já cresceram acompanhado o crescimento/mudanças da  rua. Sobre a origem do nome do bairro ela explica "Disseram pela história, que a Engomadeira tinha muitas mulheres que lavava roupa, engomavam, passavam, era muita gente trabalhando nesse lance de lavar roupa" , segundo ela é por conta disso que o bairro recebeu esse nome. 





Sobre a origem do nome do bairro Dona Cremilda Santana moradora da engomadeira há 48 anos,  disse: " O nome da engomadeira é o seguinte, disse que aqui era um lugar que se tinha muita mulher que lavava roupa de ganho, que os ônibus iam tudo cheio só de trouxa de roupa, e botaram esse nome aqui na engomadeira".  Dona Cremilda era moradora do nordeste de Amaralina, mas por problemas familiares teve que se mudar para Engomadeira, chegou no bairro no ano de 1970.



 Quando chegou ao bairro, a mata ainda bem fechada, tinha muita cobra e outros animais e isso incomodava demais os moradores “Aqui só tinha cobra, para atravessar na rua a gente tinha que parar e deixar as cobras passar, o mato era muito”. Perguntada sobre o fato de sentir saudades do bairro, ela falou que não sente, apesar de todos os problemas sofridos atualmente ela diz que não tem como sentir saudades do local antes, dos matos, das cobras, da falta de infraestrutura e saneamento do local.

Diante de tudo que foi exposto pelas entrevistadas fiquei atentada a escrever minha vivência como moradora do bairro de Engomadeira. Filha de Encanador e Dona de casa,  eu, Maiane Santos da Purificação,  sou estudante de Pedagogia na Universidade do Estado da Bahia, negra, cristã, pobre.



Moradora do bairro de engomadeira há 21 anos (minha idade), aqui fui nascida, criada, e estou evoluído. Vi a mudança e o progresso da Segunda Travessa Paulo Magalhães Dantas (rua em que moro) de frente, lembro-me dos tratores, das obras, dos políticos inaugurando a rua, a alvenaria de concreto que contem a encosta.



Hoje, vivo na pele a dificuldades que só o morador da periferia sente, vivo na pele a discriminação por morar no Bairro da engomadeira, vivo na pele as consequências da falta de segurança pública, saúde, educação, etc.

Por isso, posso afirmar que conhecer a história do meu bairro, me faz ter ainda mais orgulho de ser “cria da Engomadeira”, desejo profundamente que do berço desse bairro tão sofrido saiam, professores, médicos, advogados, políticos, etc. Espero estar viva para ver, esse bairro ser reconhecido pela sua gente  honesta e trabalhadora, pelos seus estudantes batalhadores (tanto ou mais do que eu), espero que em breve, nas manchetes da mídia, a Engomadeira seja reconhecida pelo seu melhor e não pelo ser pior (que é mínimo).



Por Maiane Purificação

O BAIRRO DA ENGOMADEIRA




O bairro da engomadeira é um dos mais antigos de Salvador, localizado no miolo central da cidade é um local densamente povoado e desordenadamente urbanizado, com uma rua direta não muito extensa, mas com inúmeros becos e vielas com casas em sua maioria construída irregularmente. Com um comércio variado e que supre as necessidades da comunidade, o bairro possui algumas instituições públicas, o posto de saúde, o CRAS (Centro de Referência e Assistência Social), e duas escolas municipais que atendem estudantes do 1º ao 5º ano, e uma delas atende a educação infantil.

Atualmente é conhecido pela mídia baiana como uma região violenta e dominada pelo tráfico de drogas. Contudo, a Engomadeira é constituída por moradores honestos, trabalhadores, estudantes e acima de tudo, cidadãos de bem. Assim como outros bairros periféricos de Salvador, a engomadeira é marginalizada, e seus moradores sofrem muito com isso.

A engomadeira faz fronteira, com o Cabula, a Estrada das Barreiras e o Beirú (Tancredo Neves). Beirú e Engomadeira na antiguidade se separavam apenas pelo Rio que pertence a comunidade de Engomadeira e onde muitas das “roupas de ganho” eram lavadas, infelizmente hoje é um esgoto e poucos dos novos moradores sabem que aquele local um dia foi um rio que serviu muito a todos os moradores da época.

O bairro, tem suas origens intrinsecamente ligada a constituição do bairro do Cabula. A engomadeira assim como o Cabula surgiu da tentativa de alguns negros escravizados  de fugirem de seu algoz, assim por ser um local de mata fechada e um ponto alto da cidade de Salvador eles se escondiam de seus malfeitores nas matas da Engomadeira. Sendo assim, onde hoje é o bairro da engomadeira surgiu um quilombo de negros-africanos fugidos, quilombo esse que resistiu até o século XIX. Porém com a venda das terras da região que pertencia aos muitos coronéis de Salvador, foram criadas no local fazendas e chácaras, nelas os negros cultivavam jaca, fruta-pão, cocô, abacate, banana e principalmente laranja de umbigo, etc.

Para alguns, o nome do bairro tem origem das lavadeiras e engomadeiras que serviam aos quartéis das Forças Armadas, contudo, existe uma outra explicação a de que o nome do bairro surgiu da palavra Engoma que é uma variação da palavra “Ngoma” que tem origem africano-banto da língua Kimbundo e Kikongo, que é um tambor de origem angolana e era muito usado no quilombo do bairro.  Apesar de sua constituição, muitos moradores desconhecem o fato de o bairro ser oriundo de um quilombo e da presença de africanos nas terras da Engomadeira. 


Por Maiane Purificação

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